“Nós estamos por nossa própria conta”, afirma criadora de portal afrocultural

Salvador respira cultura. Não há como pensar na cidade sem pensar em todos os seus aspectos… Desde a dança, a música, a arquitetura, a religiosidade. São infinidades de referências. E tanta efervescência motivou a jornalista Jamile Menezes a criar o Soteropreta, um portal afrocultural “construído, formado, mobilizado e destinado à população negra”. Para o Site Lista Negra, a comunicadora contou sobre suas inspirações para encarar esse desafio de empreender no campo da cultura em uma cidade com tanta história e diversidade, mas que ainda enfrenta muitos desafios para se consolidar no que tange o desenvolvimento cultural, em especial com recorte racial.

1 – O que é e como você define o Soteropreta?

Somos um portal de notícias destinado à produção cultural soteropolitana construída, formada, mobilizada e destinada à população negra, em especial, e que possa também atingir as demais etnias interessadas neste conteúdo e que atuem em seu fortalecimento. O SoteroPreta – Portal Afro AfroCultural de Salvador é a primeira iniciativa exclusiva para este conteúdo, ou seja, teremos notícias, reportagens, perfis, entrevistas, tudo voltado para as diversos campos da Cultura negra na cidade.

2. Por que você decidiu criar o portal?

Porque precisávamos. Temos uma efervescência no campo da Cultura nesta cidade que precisa ser vista, multiplicada e reportada por um ponto de vista nosso. Temos ações, projetos, iniciativas bombando por aí no campo das Artes, Música, Teatro, Audiovisual, Memória, Dança, Formação, Literatura, Religião, Gastronomia, Moda, Políticas Culturais, Artivismos…é muita coisa rolando que o Portal SoteroPreta pretende abraçar, cobrir e dar visibilidade. A juventude negra, por exemplo, tem sido master em ações culturais na cidade, então ela merece um Portal de Notícias exclusivo pra suas iniciativas. Muitas vezes nem chega nas redações dos veículos que já estão aí, e quando chega…depende de muita coisa pra ser divulgado. Quero que o Portal também seja fonte para outros veículos e ponte para estes afroempreendedores culturais.

3 – Você é jornalista, correto? Quais os desafios de empreender no ramo do jornalismo e da cultura?

Jornalista. Empreender nesta área tem os desafios de qualquer outra, no que toca à estrutura, recursos de pessoal e financeiro, ou seja, a gestão de um negócio como qualquer outro. Mas há demanda que necessita do negócio, então, precisamos identificá-la, entendê-la e captá-la para produção. Pesquisar pautas que um realizador, muitas vezes, nem entende ter potencial de comunicação está sendo um desafio. Porque o SoteroPreta não é apenas para os releases prontos das grandes produções, é para aquela iniciativa que transforma uma realidade, seja um projeto cultural comunitário, ou um trabalho solo…como é o Portal.

4 – Você se considera empreendedora? Se sim, por quê?

Sim, empreender é sair do lugar e fazer uma ideia se concretizar. Isso envolve gestão, tempo, dedicação, dinheiro, articulações, reuniões, conversas, acordos…em uma atitude que busque inovar, transformar ideias. Então sim, sou empreendedora e o Portal SoteroPreta é apenas um dos que tenho em mente.

5 – Você nasceu em Salvador? É de que bairro?

Soteropolitana….bairro, nem ideia. Rs filha de Cachoeira (mãe) e São Félix (Pai).

6 – Quais os caminhos no jornalismo, ou fora dele, te incentivaram a criar o portal?

Uma passagem fundamental pelo Instituto de Mídia Étnica, muitas relações pessoais no movimento negro, um trabalho de produção artística e casamento com a cantora Savannah Lima, inspirações de grandes mulheres negras tombadoras que tão mudando a cidade, o país, e a filosofia africana UBUNTU, que trata da importância de alianças e solidariedade entre as pessoas e a doutrina espírita que me ensina todos os dias que eu sou a transformação que quero pro mundo.

7 – Em tempos de crise, Eh preciso empreender?

Em qualquer tempo é preciso empreender. Nós negras e homens negros somos mais de 60% dos MicroEmpreendedores, temos ideias geniais, criativas porque somos isso. Crise é oportunidade, te mostra caminhos, alternativas. Então, precisamos unir estas situações, sair do lugar – porque não somos árvores – se instrumentalizar, dedicar o que tem e transformar o que achamos que precisa ser transformado. Se não fizermos…alguém vai fazer.

8 – Qual mensagem você envia para pessoas que estão querendo empreender?

Reclamar é importante, a gente se ouve e depois ouve a vida nos respondendo. É saber entender estas respostas e partir pra ação. Ninguém disse nem diz que será fácil, não é e jamais será. Mas 90% é por nossa conta (10% da Espiritualidade). E nós estamos por nossa própria conta, como Bantu Steve Biko já nos alertou!

Texto elaborado pela jornalista Midiã Noelle e publicado na primeira versão do site A Lista Negra em 2016.

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